POR QUE A TURQUIA VIROU ALVO DO ESTADO ISLÂMICO?

Por Willian Moraes Roberto

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Passageiras na entrada do Aeroporto Atatürk depois do ataque. Fonte: CBCnews

No dia 28 de junho de 2016, a Turquia foi abalada por um novo ataque terrorista no Aeroporto Internacional Atatürk, causando a morte de mais de 50 pessoas e deixando mais de 230 feridos. O ataque é mais um em uma série de atentados terroristas que o país vem enfrentando recentemente; foram sete nos últimos dez meses apenas em Istambul (janeiro, fevereiro, março, junho, julho de 2016) e Ancara (outubro de 2015 e fevereiro e março de 2016).

O Primeiro-Ministro turco, Binali Yildirim, acusou o Estado Islâmico (EI) de ser responsável pela ação devido à semelhança com o ataque ao aeroporto em Bruxelas, em março desse ano, e outros ataques em Istambul, mesmo que o grupo ainda não tenha reivindicado a autoria do ato. Diante dessa escalada de violência, cabe-se questionar: Por que agora, depois de quase dois anos do surgimento do EI, a Turquia se tornou alvo tão intenso de ataques deste grupo?

Entendemos que a origem dos problemas atuais da Turquia encontra-se na inflexão pela qual sua política externa passou a partir das revoltas árabes iniciadas em 2011 – especialmente em relação à Síria. Após anos adotando no Oriente Médio uma postura pautada na mediação de conflitos, o governo AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), liderado por Recep Tayyip Erdoğan, passou a agir com assertividade inédita, apoiando direta e indiretamente a oposição ao governo de Bashar al-Assad na Síria. Entretanto, com o passar do tempo e o prolongamento do conflito, dois problemas passaram a atrapalhar a estratégia turca: de um lado, a proliferação de grupos radicais islâmicos no território sírio; de outro, a autonomia adquirida pela população curda no norte desse país.

Em relação à primeira questão, destaca-se o fato de que a Turquia, ao lado  da Arábia Saudita e do Catar, articulou uma rede de apoio financeiro e de distribuição de armamentos à oposição síria através de suas fronteiras, contando também com auxílio ocidental. Além disso, o governo turco facilitou a passagem de combatentes estrangeiros pelo seu território para que fossem lutar na Síria, deixando sua fronteira de mais de 800km mal monitorada. Entretanto, como aponta o trabalho de Patrick Cockburn (2015), “A Origem do Estado Islâmico”, esse esquema de apoio encoberto acabou beneficiando sobretudo grupos radicais islâmicos provenientes, de um lado, da célula da Al-Qaeda no Iraque, precursora do EI, que infiltrou combatentes no país para aproveitar-se do influxo de armas e dinheiro; e, de outro, do fluxo de combatentes estrangeiros de matizes ideológicas cada vez mais radicais que chegavam à Síria através da Turquia.

A outra questão problemática para a Turquia surgiu quando os curdos no norte da Síria adquiriram autonomia efetiva. Os curdos sírios, representados pelo Partido da União Democrática (PYD) e seu braço militar, as Unidades de Proteção Popular (YPG), passaram a ser uma fonte de preocupação para o governo turco, maior que a questão da permanência de Assad no poder, visto que a Turquia temia tanto ligações entre o PYD sírio e o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) turco quanto a ideia de uma federação curda na fronteira sul da Turquia, como declarado pelo PYD.

A Turquia, assim, via-se diante de duas novas ameaças advindas da Síria: a expansão de grupos radicais islâmicos e a obtenção da autonomia dos curdos sírios.  Porém, o governo em Ancara percebia que essas duas novas forças eram também inimigas. Portanto, como temia principalmente o separatismo curdo, parece que a Turquia preferiu “fechar os olhos” para a proliferação de jihadistas na Síria.

Tal postura complicou-se, entretanto, quando os EUA formaram uma coalizão para enfrentar a ascensão do EI em 2014. Como o governo turco temia que os curdos sírios pudessem se fortalecer caso também lutassem contra o EI, criou-se um impasse na aliança Turquia-Ocidente. O país negou-se a participar da coalizão e a ceder sua base aérea em Incirlik, como também passou a se opor energicamente à parceria emergente entre os EUA e as unidades curdas – que efetivamente se tornaram uma das forças mais efetivas no combate ao EI.

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Forças parte do conflito sírio em fevereiro de 2016. Destacam-se, em amarelo, os curdos sírios (PYD e YPG), próximos às fronteiras com a Turquia. Fonte: Stratfor.

 

Somente em julho de 2015 que o governo turco se reposicionou. De um lado, tomou parte na coalizão, finalmente abrindo guerra contra o EI. Mas de outro, reiniciou o combate ao PKK domesticamente, congelado desde 2013. Também se resgatou a proposta de criar uma “zona tampão” dentro da Síria que, oficialmente, serviria para agrupar a oposição contra Assad e a realocar os refugiados do conflito. Mas por que o governo turco teria optado por essa nova estratégia somente nesse momento?

Em primeiro lugar, uma razão doméstica é que, em junho, eleições gerais na Turquia haviam gerado pela primeira vez um governo de minoria parlamentar para o AKP; novas eleições seriam chamadas em novembro, e o governo precisava angariar novos votos. A investida contra o PKK e o EI procurou realinhar Ancara com seus aliados ocidentais e buscar votos do bloco nacionalista, bem votado em junho. Em segundo lugar, a zona tampão também seria uma nova aposta para, além de lutar contra o EI, evitar a unificação da região curda na Síria, já que sua implementação seria entre as duas regiões controladas pelo PYD. Como essa estratégia demandaria apoio ocidental, a decisão do governo AKP em juntar-se à coalizão também se explica por isso.

Portanto, após ter adotado postura passiva frente à proliferação de grupos radicais na Síria, a Turquia muda sua postura em 2015 e passa a desmantelar as redes terroristas estabelecidas em seu território, ligadas aos combatentes na Síria. Essa “investida tardia” contra o EI aponta para possíveis razões do porquê o grupo ter passado a realizar ataques contra a Turquia somente a partir daquele ano e agora em 2016. Além disso, o EI passou a optar por explorar o conflito entre o governo turco e os curdos, orquestrando ataques a alvos desses para fomentar a instabilidade no país – como o comício do Partido Democrático do Povo (HDP) em Ancara, pró curdo, em outubro de 2015, que matou 103 pessoas. Esse conflito interno turco também pode ajudar-nos a compreender porque o EI não reivindica seus atentados na Turquia: o grupo procura forçar o governo a considerar a autoria curda, garantindo que Ancara continue enfrentando dois inimigos ao mesmo tempo. Ainda assim, o padrão de ataques é diferente, o que vem permitindo ao governo culpar o EI pelos últimos ataques em Istambul: enquanto o EI costuma atacar alvos turísticos e movimentados, o PKK e o TAK (Falcões da Liberdade do Curdistão) – grupos curdos turcos –  costumam atingir alvos governamentais ou militares.

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