A estreita relação da Rússia com a Síria

  • Por Elcineia de Castro e Daniella Melo

 

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           Charge publicada no portal russia-insider.com

           A relação entre Rússia e Síria é historicamente forte e estável. O governo russo possui relações políticas e estratégicas bem próximas ao governo de Bashar al-Assad. Para se compreender o atual conflito na Síria, é preciso analisar a relação do país com a Rússia, já que o governo russo tem apoiado politicamente o governo sírio, enquanto os Estados Unidos têm recorrido às medidas intervencionistas em favor dos rebeldes.

        O Estado da Síria, desde 2011, encontra-se em uma guerra civil entre o governo de Bashar Al-Assad, o Estado Islâmico (ISIS) e grupos rebeldes populares, que lutam pela deposição deste governante e são combatidos pela força militar do governo.

       O gráfico abaixo elaborado pelo jornal inglês The Economist, trata das principais divergências políticas no Oriente Médio, considerando o Estado Islâmico como a grande ameaça na região. A ilustração gráfica é bastante pertinente a esta reflexão, pois contempla duas variáveis imprescindíveis para se pensar o Estado Sírio nos próximos anos: Estados Unidos e Rússia. Os grupos rebeldes que atuam na Síria contra o regime de Bashar al-Assad recebem apoio dos seguintes países: Arábia Saudita, Estados Unidos, Jordânia, Turquia e Qatar. Além de uma considerável parcela do território sírio estar sendo controlado pelo Estado Islâmico. Já o governo de Bashar al-Assad recebe apoio do Irã, do Líbano (através do Hezbollah) e da Rússia.

Grafico 1

Fonte: The Economist

 A Síria ocupa posição estratégica dentro do Oriente Médio, uma vez que possui saída para o mar, região na qual existem instalações navais russas, e faz fronteira com a Turquia, por onde o petróleo da região escoa para a Europa. Uma guerra no país não favorece a estabilidade política dos países ao redor: Arábia Saudita, Iraque, Irã, Egito, Líbano, Israel, países economicamente e geopoliticamente importantes para as potências ocidentais. Ao contrário dos governos russo e chinês, o governo dos Estados Unidos e Aliados enxergam o governo de Assad como o motivo para a instabilidade no país,  defendem a sua imediata renúncia ao poder e a ascensão de um líder que favoreça suas relações com a Síria

            Em contrapartida, a Rússia, parceira histórica do Estado sírio, perdeu todas as suas antigas bases militares soviéticas, incluindo aquelas localizadas em Cuba e Vietnã. E a base síria em Tartus foi a única base que prevaleceu, o que ajuda a explicar o motivo pelo qual a Síria é tão significativa quando se considera o poder geopolítico da Rússia. A Síria sempre foi vista pela Rússia, antes, durante e após o fim do regime soviético, como ponto de partida para o avanço geopolítico na região do Oriente Médio e Norte da África.

            No gráfico abaixo, elaborado pelo Stockholm International Peace Research Institute, emerge uma questão pertinente para esta breve reflexão. O Estado da Síria é um importante importador de armamentos russos. Aliás, dentre os cinco maiores compradores, a Síria é único país de seu contexto regional que compra armas russas com exclusividade, o que evidencia a existência da confiança e dependência mútua entre as partes.

Países que importaram armas da Rússia em 2013

Grafico 2

Fonte:  Stockholm International Peace Research Institute 

            No final do ano de 2013, os governos de Moscou e Damasco firmaram um acordo para a exploração de gás e petróleo em águas sírias, durante os 25 anos vindouros. O Estado russo tem plena autonomia para perfurar, extrair, inclusive os bolsões de gás natural detectados. É importante salientar que essa foi a primeira vez que a Síria concedeu permissão de exploração offshore a um país estrangeiro, que hoje é principal aliado do regime de Bashar al-Assad.

Desde setembro de 2015, a Rússia envia tropas militares para Síria com o intuito de combater o Estado Islâmico (ISIS). Todavia, potências ocidentais e ONGs afirmam que as tropas russas atacam os grupos opositores ao governo de Bashar Al Assad  e não apenas o Estado Islâmico. A Rússia é um aliado histórico da Síria e manter Assad no poder representa uma unidade política que favorece ao governo de Putin.

            No início do mês de abril do presente ano, durante a Assembleia do Conselho de Política Exterior e Defesa da Rússia, o Ministro das Relações Exteriores Sergey Lavrov (https://southfront.org/russia-is-altering-its-foreign-policy) afirmou que o país está adotando um paradigma policêntrico para sua política externa, ambicionando contribuir diretamente na criação de um sistema de política internacional nesta linha. Afirmou categoricamente que nesta nova concepção russa de política externa, suas parcerias estão sendo estabelecidas levando em consideração os interesses de todas as partes envolvidas e não de um Estado mais forte.

                A relação da Rússia com a Síria, pensada a partir de seus líderes, elite política e militar é bem próxima. Apesar de possuírem regimes políticos distintos e realidades sociais opostas, parece que as elites do poder, os tomadores de decisão, tanto russo, como sírio, estão em sintonia. O estreitamento dessa relação tomou forma quando o pai de Bashar al-Assad assumiu o poder por mais de três década (1970-2000). Neste ínterim de tempo, valores e visões foram compartilhados entre os líderes e elites militar e política de cada Estado, perpassando pelo regime soviético.

            Neste cenário, emerge um importante questionamento: é possível que o governo norte-americano conceda plenos poderes à Rússia para gerenciar a crise interna síria e liderar o enfrentamento contra o Estado Islâmico com suas próprias estratégias de defesa e planos?

            Ao apoiar o regime de Bashar al-Assad, fica evidente que a Rússia quer manter sua relação com a Síria de forma estável, já que tem muitos interesses materiais na região. Enquanto os Estados Unidos prefere não iniciar uma nova empreitada intervencionista no Oriente Médio, como ocorreu no Afeganistão e Iraque. Apesar de o mundo permanecer com apenas uma superpotência nos âmbitos politico e militar, o domínio nos níveis industrial, financeiro, social e cultural tem se desvencilhado paulatinamente do domínio norte-americano. E neste mundo “pós-americano”, marcado pelo declínio da hegemonia, emergem os novos jogadores no cenário internacional, o que seria a “ascensão do resto”, capazes de reorientar os rumos da governança global. E a Rússia está na linha de frente destes países em ascensão. Isso porque, ao atuar no conflito sírio, a Rússia almeja retomar sua influência no Oriente Médio, assegurando a estabilidade e segurança na região e proteção de seus interesses.

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