Estratégias do Estado Islâmico nos atentados terroristas

Texto publicado no Portal Universitário da Unesp:

Autor: Alexandre Carreira é pesquisador do Programa San Tiago Dantas (Unesp, Unicamp, PUC/SP) e do Geci – Grupo de Estudos de Conflitos Internacionais PUC/SP

Nesta noite de 13 de novembro de 2015, uma série de atentados terroristas simultâneos atingiram diversos pontos na cidade de Paris, causando a morte de pelos menos 127 pessoas e 200 feridos, dos quais 80 em estado grave. Morreram cerca de sete terroristas que utilizaram metralhadoras e bombas na execução dos ataques. Uma operação militar de grande magnitude foi montada para evitar novos atentados e restabelecer uma situação de ordem e segurança na capital francesa. Os meios de comunicação repercutiram os acontecimentos instantaneamente; uma onda de comoção atingiu os quatros cantos do planeta pela brutalidade dos atos e um batalhão de jornalistas e “especialistas” tratou de responder e explicar todas as questões pertinentes aos fatos, traçando, assim, os cenários dos impactos dessa ação.

A reação do governo francês foi imediata. A declaração de guerra do Presidente francês François Hollande contra o Estado Islâmico foi feita num momento em que a autoria do atentado era ainda desconhecida e havia apenas hipóteses. Somente na manhã de sábado, 14 de novembro de 2015, uma carta, escrita em francês, foi enviada ao jornal Le Monde pela organização, assumindo a autoria dos atentados terroristas.

O ato terrorista perpetuado por esta organização tem um caráter simbólico. Ao realizar uma ação desse porte na cidade de Paris, o grupo capitalizou a atenção de toda a mídia mundial, projetando-se como um ator contestador da ordem mundial estabelecida pelas grandes potências. A questão que se coloca é: esse ator teria os meios destrutivos necessários para desestabilizar o sistema internacional e representaria, de fato, uma ameaça ao modo de vida do Ocidente e suas instituições?

O emprego do terrorismo pelo Estado Islâmico é uma opção tática da organização por possuir meios bélicos inferiores aos das potências oponentes. O objetivo dessa ação foi gerar um número maior de vítimas entre a população civil, utilizando-se de meios destrutivos de baixa intensidade e causando uma sensação de medo e insegurança, questionando assim a capacidade do governo francês em proteger sua população contra essa ameaça. Na carta enviada ao jornal Le Monde, o grupo justifica a ação como uma retaliação aos bombardeios realizados pela França nos territórios administrados pelo Estado Islâmico na Síria e no Iraque; isso demonstra sua capacidade em provocar danos dentro do território francês e em criar a percepção de uma maior capacidade destrutiva.

O governo francês é pressionado a empreender uma ação incisiva de repressão, demonstrando sua capacidade de reação imediata para garantir o restabelecimento da normalidade e da segurança de seus cidadãos no território.  A questão colocada é que Estado Islâmico é uma organização política islamista, que possui uma rede internacional de colaboradores, simpatizantes e recrutadores atuantes na divulgação de seu projeto político-ideológico, os quais se empenham em angariar novos membros para atuar na construção do seu califado estando presentes em diversos países, particularmente na França. Na sociedade francesa, em especial, há uma tensão latente em relação às comunidades islâmicas, compostas, em sua maioria, por imigrantes e seus descendentes, oriundos em sua maioria de suas ex-colônias. A profunda dificuldade de integração desses indivíduos, frequentemente vítimas de preconceito, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho e o alojamento nos conjuntos habitacionais das periferias francesas, criam ambientes profícuos para canalizar as insatisfações num projeto contestador empreendido pelas redes de cooptação do Estado Islâmico.

O Estado Islâmico é uma organização nascida no Iraque. Após a invasão estadunidense, engajou-se numa luta contra ocupante e operou sob a égide da Al Qaeda da Mesopotâmia, porém essa aliança teve problemas na condução. O grupo assumiu uma agenda sectária, com uma série de atentados contra alvos da comunidade xiita do Iraque, inclusive mesquitas. A direção da Al Qaeda não concordava com esse tipo de ação, mas, na prática, obteve sucesso em fomentar divisões internas e canalizar as insatisfações das comunidades sunitas. O conflito na Síria criou uma oportunidade para a organização se fortalecer. Nesse contexto, o grupo rompe com a direção da Al Qaeda e passa a disputar financiamento, militantes, prestígio e território, numa luta fratricida. Alguns elementos são determinantes para analisar a atuação do Estado Islâmico no contexto dos movimentos islamistas radicais: a criação de uma unidade política em partes dos territórios da Síria e do Iraque, com a criação de uma estrutura burocrática de administração de um território, alianças com lideranças políticas locais e a constituição de uma força militar mais estruturada. Esses fatores criaram uma base material para expansão e para a atuação do Estado Islâmico numa esfera internacional, porém sua escala de operação, até então, era manifestadamente circunscrita no entorno geopolítico do seu território.

A execução de atos violentos na Europa pode ser compreendida estrategicamente como uma tentativa de acirrar as tensões latentes no continente europeu entre os segmentos mais conservadores e xenófobos e os segmentos mais cosmopolitas e liberais no contexto da abertura das fronteiras para os refugiados. Mesmo antes dos atentados, muitas lideranças políticas argumentavam que a abertura das fronteiras representava um risco para a segurança do continente, posto que ,em meio à massa de refugiados, possivelmente, alguns terroristas estariam penetrando no continente para a realização de atentados.  Foi amplamente noticiada a existência de um passaporte sírio encontrado ao lado do corpo de um dos suicidas. A veracidade do fato é complicada de se comprovar nesse momento, porém reforça os argumentos dos setores conservadores e xenófobos ao contribuir para a polarização da sociedade europeia. Por outro lado, o acirramento da repressão aos refugiados gera um sentimento de revolta nas comunidades imigrantes; esses elementos podem ser aproveitados como peça de propaganda para ampliar o engajamento de militantes e para a atuação de novas células no território europeu. Não por acaso o local da ação foi Paris. A França possui uma das maiores comunidades de imigrantes da Europa, além de possuir também um movimento nacionalista xenófobo em expansão, que contribui para a polarização da sociedade francesa nas questões de integração dos imigrantes e do recebimento de novos refugiados.

A grande vítima política dessa operação é, sem dúvida, o governo francês. Primeiro pela incapacidade de garantir a proteção e a segurança dentro do seu território. Em segundo lugar, seu posicionamento na aliança de combate ao Estado Islâmico no Oriente Médio. Até então, os bombardeios franceses e de outros países não conseguiram neutralizar a ação do grupo. É bom lembrar que, a internacionalização do conflito sírio e a incapacidade das potências regionais e mundiais em encontrar um ponto de convergência para o combate ao Estado Islâmico obriga o governo francês a negociar uma agenda comum com diversos países e interesses díspares. A oposição política francesa conservadora pode avançar na disputa política,  com um discurso de ampliação da repressão as comunidades de imigrantes, o fechamento das fronteiras e até mesmo a expulsão de todos os imigrantes do território francês.

Os atentados terroristas em Paris são uma ação do Estado Islâmico para a consolidação de seu projeto político de constituição de um califado, ou seja, a consolidação de uma unidade política no coração do Oriente Médio. Tal projeto está sendo contestado pelo movimento de duas coalizões internacionais lideradas pela Rússia e pelos EUA – na qual os franceses lutam paralelamente aos estadunidenses. A possibilidade de uma convergência entre essas coalizões ameaça seriamente sua existência.

Portanto, empregar atos de terrorismo no território europeu é uma ação que, nos campos tático, estratégico e político, têm como objetivos demonstrar sua capacidade destrutiva, polarizar as forças sociais que atuam tanto nas sociedades europeias como nas sociedades dos países islâmicos, criando um espiral de violência e brutalidade, propícios para sua mensagem de ódio.

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