O atentado em Paris e a política internacional

O terrorismo causa forte impacto emocional e tem sua força justamente na comoção que pode suscitar. Portanto, são nestes momentos em que as análises devem ser o mais ponderadas e sóbrias possíveis.

O ataque de ontem na França foi o mais recente de uma série de outros atentados reivindicados pelo Estado Islâmico. No mesmo dia, uma ação do grupo no Iraque deixou 26 mortos, somando aos outros 43 assassinados em duas explosões suicidas no Líbano na quinta-feira. Há duas semanas, o EI também reivindicou a autoria da queda de um avião russo que saía do Egito onde, embora o governo egípcio negue, todas as evidências indicam fortemente a presença de uma bomba na aeronave. Mais do que ações pontuais, eles indicam uma grande capacidade de organização, mobilização e de concretização de objetivos táticos – como o ato terrorista.

Durante a guerra do Vietnã nos anos 60 e 70, enquanto os B-52 norte-americanos lançavam o maior número de bombas de todas as guerras da história somadas e transformavam a geografia vietnamita, em portas fechadas Richard Nixon e Henry Kissinger se encontravam com seus pares chineses para conduzir as negociações da guerra: ao mesmo tempo em que lutavam pela libertação nacional, os comunistas do Vietnã tinham vínculos com a China e a URSS.

Até agora, pouco se disse que os ataques acontecem no exato momento em que os principais Estados que participam de alguma forma no conflito sírio se reunem em Viena, com o objetivo de negociar uma saída para a guerra civil que já se estende por 4 anos com mais de 310 mil mortos. A recente escalada do envolvimento nos últimos meses de EUA, Reino Unido, França e Rússia com o objetivo de conduzir o processo que se dá naquilo que outrora fora o território sírio nos indica uma tentativa de retirar de cena seu inimigo em comum, o Estado Islâmico. Se EUA e Rússia divergem quanto aos destinos de Assad no poder, ambos se esforçam, cada qual com sua estratégia, para varrer o EI do mapa.

Hoje, a qualificação retórica de “declaração de guerra” feita pelo presidente francês François Hollande com relação aos atentados se confunde entre os observadores pela má interpretação e incompreensão dos fatos políticos. A prerrogativa da declaração de guerra é somente dos Estados. Assim, os vínculos do Estado Islâmico enquanto “partido” – se ainda não é “Estado” de juri embora talvez seja de fato – perpassam o quadro de poder regional e as alianças se alteram ao sabor das circunstâncias: Arábia Saudita e Turquia, por exemplo. Mas seus meios materiais ($), diria-se, são “interdependentes” e globais.

Ao longo desta “guerra”, em que as potências bombardeiam por cima e o Estado Islâmico bombardeia por baixo, os olhos devem estar atentos contra aqueles que procuram por mais sangue e gritam aos quatro ventos sua sede de vingança.

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