Novamente, “boots on the ground”? Estratégia militar norte-americana no Oriente Médio

Texto de Rodrigo Amaral, pesquisador e mestrando de Relações Internacionais do PPGRI San Tiago Dantas (UNESP-UNICAMP – PUCSP).

A nova estratégia militar norte-americana contra o Estado Islâmico prevê a retomada de tropas americanas no Oriente Médio, também conhecida como política militar de “boots on the ground”, mais especificamente no Iraque e na Síria. No caso do Iraque, seria a retomada de ações militares no país apenas quatro anos depois da retirada das ultimas tropas (2011) no conflito em que os norte-americanos invadiram o país, com início em 2003. Na Síria, será a primeira vez na história que os EUA agirão com tropas no seu território.

Dependendo da forma como for estabelecida essa nova estratégia de combate ao terrorismo no Oriente Médio, é provável que implique em redefinições no sistema de alianças entre os poderes regionais (Irã, Turquia e Arábia Saudita) e grandes potências como EUA e Rússia.

De certa forma, os acontecimentos deste mês de outubro que passou, sinalizaram mudanças fundamentais na guerra civil da Síria. De um lado, a Rússia acionou sua força aérea na Síria, supostamente em combate ao Estado Islâmico. Do outro, o Departamento de Defesa dos EUA declarou o início de uma estratégia militar de combate direto contra o Estado Islâmico. Porém, neste meandro, outras questões latejam na região para além do “combate ao terrorismo” do mesmo inimigo. O (não) reconhecimento de atores políticos não estatais e suas lutas revolucionárias apimentam o imbróglio político-militar no Oriente Médio.

Syria_and_Iraq_2014-onward_War_mapMapa descrevendo a situação na Síria e no Iraque, em 2014:

  () Controlado pelo Estado Islâmico
  () Controlado por outros rebeldes Sírios
  () Controlado pelo governo da Síria
  () Controlado pelo governo do Iraque
  () Controlado pelos curdos sírios
  () Controlado pelos curdos iraquianos

Na terça-feira (27/10), o Secretário de Defesa dos EUA, Ashton Carter anunciou que o país iniciará combate direto contra as forças do Estado Islâmico na Síria e no Iraque. Isso implicaria a utilização de tropas norte-americanas e forças aéreas nos respectivos países.

A razão apontada pelas mídias internacionais para adoção desta estratégia de combate ao Estado Islâmico seria a insatisfação do Pentágono na ação indireta (prover armas e dar treinamento aos combatentes contra o Estado Islâmico). Posteriormente, com a morte do Sargento chefe Joshua Wheeler (23/10/2015), da equipe de operação militar de elite Força Delta no Iraque, efetuada pelo Estado Islâmico, intensificou-se o desejo da Casa Branca de retomar práticas de combate militar direto (intervenção de tropas no território com combatentes norte-americanos) na região. Foi à primeira morte de um combatente americano, desde 2011. Porém, o que salta aos olhos como principal motivo para essa nova tomada estratégica dos EUA seria a participação russa direta no conflito na Síria. A entrada da Rússia “obrigou” aos norte-americanos repensarem sua estratégia político-militar na região, a presença russa na região implica um re balanceamento de poder no Oriente Médio, no qual os norte-americanos encaram como necessário equilibrar. Não apenas devido o conflito sírio, mas também pelo estabelecimento de apoios regionais que envolvem os principais Estados do Oriente Médio.

O Pentágono ainda espera uma aprovação do presidente Barack Obama para que este plano se consolide de fato. Um fato curioso é que nos anos de sua campanha eleitoral, que culminaria na sua eleição em 2008, Obama havia prometido retirar progressivamente as tropas norte-americanas no Afeganistão e Iraque, até a retirada total. Não obstante, neste mês de outubro, Obama declarou a extensão do período de presença militar no Afeganistão para acompanhar a reconstrução política do país, soma-se a isso a aparentemente retomara o uso de tropas no Iraque para “combater o terrorismo”, teremos uma retomada da presença de combatentes americanos nos considerados países chave do projeto da Doutrina Bush de “Guerra ao Terror”. Como poderíamos entender esta decisão: Seria falta de alternativa (incapacidade política)? ; necessidade de manter de uma ocupação militar que gera bons fundos a sua economia? ; seria para contrapor a presença russa na região? ; ou um pouco de todos estes fatores?

Trata-se desta forma da quarta operação militar norte-americana no Iraque em 25 anos. A primeira durante a Guerra do Golfo em 1991, os EUA combateram o Iraque contra a invasão ao Kuwait. A segunda em 1998, a operação Desert Fox (Raposa do Deserto), em que junto aos britânicos, os EUA bombardearam o Iraque no intuito de desabilitar a capacidade do país produzir armas de destruição em massa. A terceira em 2003, uma intervenção militar que duraria oito anos, cujos EUA (junto com a Grã-Bretanha) atuariam como “autoridade Provisória” num projeto de statebuilding (Reconstrução do Estado). E finalmente, os EUA retomariam uma ação militar no Iraque, para combater um inimigo não-estatal (Estado Islâmico), em aliança com o governo iraquiano.

Na Síria, a situação é mais delicada. Em um conflito com múltiplas frentes, tem-se de um lado o presidente Bashar al Assad que controla 25% do território sírio, do outro frentes revolucionárias representadas pelos grupos: Frente al-Nusra; Forças Curdas; Coalisão Nacional Síria (Exército livre da Síria, Frente revolucionária Síria, Brigadas independentes). O ator mais novo neste conflito é o Estado Islâmico que controla cerca de 60% do território sírio, sem coligação direta com nenhum dos grupos anteriores tratados. Diante deste cenário, formam-se alianças: o Irã e a Rússia em apoio ao governo de Assad; e os EUA, Arábia Saudita, Turquia em apoio às frentes revolucionárias. Caracterizando a complexidade da guerra civil síria.

Em setembro, durante reunião na Assembléia Geral da ONU, os presidentes Barack Obama (EUA) e Vladmir Putin (Rússia) se reuniram para discutir temas de segurança internacional. Durante discurso, Obama defendia a necessidade de trabalhar em conjunto com Rússia e Irã, se fosse preciso, em busca de uma transição de poder pacífica, para colocar um fim a carnificina que ocorre no país desde o início da guerra civil síria em 2011. Em contraposição, a Rússia aliada do presidente sírio Bashar Al’Assad, algumas semanas após a reunião com os EUA,inicia ações militares contra o Estado Islâmico, em favor da Síria enquanto Estado aliado.

Posteriormente, Putin recebe Assad, naquela que seria a primeira reunião do líder político sírio no exterior desde o início da guerra civil em seu país. Nesta oportunidade, os líderes políticos conversaram sobre as operações militares russas na Síria com o objetivo de estabelecer bases estratégicas para um processo de reconstrução política do país, que culminou na presença russa no país. Aparentemente, desde o início das ações russas na Síria, o governo norte-americano se mostrou “incomodado” com a intervenção, uma vez que os EUA são contra o regime político de Assad e explicitamente apóiam as forças insurgentes que lutam contra o governo sírio.

Entretanto, ainda mais complicado é o fato de que analistas internacionais e jornalistas independentes indicaram que mais de 90% das bombas foram despejadas pela força aérea russa na Síria, atingiu locais controlados por outros grupos contra o Regime sírio, que não o Estado Islâmico. Diante disso, algumas indagações devem ser feitas: isso seria o fato real que impulsionou a ação norte-americana na região? Quais serão os impactos sobre a relação EUA-Rússia?

O Secretário de Defesa Carter disse que os Estados Unidos continuaria aconselhando e equipando grupos de oposição sírias e combatentes curdos, ao mesmo tempo lançando novos ataques aéreos contra o Estado islâmico. Em resposta, a Senadora e Presidente do Conselho da Federação Russa Valentina Matviyenco disse que tal ação norte-americana seria uma violação as leis internacionais, pois iria contra a vontade síria.

Durante a rodada diplomática em Viena (30/10) para resolver o futuro da Síria, sem a participação de nenhum grupo, ou do governo sírio, os países (EUA, Rússia, Arábia Saudita, Irã, União Européia, etc) participantes tiveram conversações duras, mas chegaram a um ponto comum quanto a um plano político, apesar de inúmeros tópicos de divergências que motivou os países a se reencontrarem em meados do fim de novembro (2015). O que ficou definido até aqui é que os EUA irão contribuir com um pequeno contingente de forças especiais na Síria que trabalhará em conjunto com grupos rebeldes “moderados” (conforme denominam os norte-americanos) locais para lutar contra o Estado Islâmico, e que não deve ser considerada uma missão de combate, pois seria uma missão militar pontual com um contingente prático é de 50 tropas.

As conseqüências ainda são imprevisíveis, mas o que é possível perceber no momento é que se concretizada a nova estratégia dos EUA, haverá uma mudança da sua participação indireta para uma ação militar direta no combate contra o Estado Islâmico. Embora no Iraque haveriam conseqüências menos complicadas no sentido em que o apoio do governo iraquiano é bem previsível, ainda que o retorno das tropas americanas seja um atestado do quão falho foi o projeto de reconstrução do estado Iraquiano (desde 2003).

O que há de concreto é que os EUA novamente retomam a utilização de tropas em combate no Iraque em cenário de guerra, conforme as afirmações dos militares norte-americanos. E ainda, depois das conversas em Viena, os EUA provavelmente vão colocar tropas no território da Síria pela primeira vez. Tudo isso, contradiz o discurso de Obama cujo plano político contava com um amplo afastamento de tropas norte-americanas na região. Portanto, temos uma nova projeção ativa de “boots on the  ground” por parte dos norte-americanos. Qual o sentido de tudo isso? Além do fato aparente da necessidade norte-americana de equilibrar poder com a Rússia no Oriente Médio. O que se pode especular, como diria o professor e pesquisador David Keen, é que “as vezes”  promover guerras é mais importante que vencê-las, pois isso gera lucros para “alguém”.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s